Valeu a Pena?

Publicação: 22 de dezembro de 2009

escrito em:
21 de Junho de 1990

Abri os olhos e fiquei um tanto assustado, até que recordei onde estava. As luzes aumentavam de intensidade lentamente, e a linha d’água vinha em direção à “máscara de mergulho”. O tanque de água superpesada, de baixíssimo ponto de congelamento, estava esvaziando. Ainda devia estar bastante frio, mas o macacão me protegia naquele momento. Comecei a sentir as lufadas de ar aquecido.

Levantei-me sentindo o peso do tempo e da falta de atividade, embora a maior parte de meus músculos tenham sido cautelosamente tratados com drogas especiais. O visor transparente da cápsula deslizou para o lado. Tirando a máscara esfreguei os olhos e procurei as outras cinco câmaras criogênicas. O comandante e os outros estavam acordando. Todos sabíamos o que aquilo significava…

Quando os cientistas, lá na Terra, receberam os primeiros sinais de rádio proveniente de Procyon, o mundo todo virou de ponta-cabeça. Tudo indicava que não estávamos sós no Universo. Infelizmente não pudemos manter um diálogo, devido a distância – já que uma sessão de perguntas e respostas com tal civilização demoraria mais de vinte e dois anos – mas soubemos que sua constituição era basicamente humana. A natureza arranja, ao que tudo indica, as mesmas soluções para os mesmos problemas.

Em sua mensagem, após um árduo período de decodificação, foi conseguido observar que eles diziam não possuir tecnologia para viagem inter-estelar, e que receberiam de braços abertos uma visita alienígena amistosa. Foram três anos antes que a mensagem fosse inteiramente recebida, e foi constatado que esta se repetiria indefinidamente.

Havia décadas, o mundo ouvia sobre viagens inter-estelares como coisa de ficção científica, e nem os vinte anos que se passaram desde o início da construção de uma variação da nave-sonda estelar Dædalus, projetada pela Sociedade Interplanetária Britânica, foram suficientes para fazer com que se acostumassem com a idéia. É certo que era uma expedição militar, contudo isso não retirava o mérito do projeto.

Desde que foram recebidos os sinais até o término do maior veículo espacial feito pelo Homem, transcorreram trinta anos. Os Procyonianos, como convencionou-se chamá-los, por certo não se incomodariam… Afinal sua mensagem fora lançada em todas as direções no espaço e, na verdade, eles nem tinham como dar-se conta de terem contatado “alguém”, mesmo porque os governos da Terra, em consenso, resolveram não emitir qualquer aviso, “nada além de um contato direto poderia ser mais apropriado”, argumentavam.

Não tínhamos tempo para olhar pelas “vigílias” ou telescópios para avistar o motivo pelo qual havíamos viajado por mais de cem trilhões de quilômetros por cerca de cento e sessenta anos. Na verdade só cento e cinqüenta e nove anos e alguns meses se passaram dentro da nave, conseqüência da dilatação relativística do tempo, mensurável quando em grandes velocidades. Estaríamos ocupados pelas próximas horas enquanto a nave adentrasse as órbitas exteriores do Sistema Procyon.

Eu não parava de pensar em quão diferentes eles seriam de nós. Embora fossem dotados de características humanóides, como descreveram genericamente, em termos científicos não seria possível que seu planeta impusesse à sua biologia as mesmas exigências que a Terra veio impondo a nós por milhões de anos. Como seriam? Qual seria a natureza de seus costumes?


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