Nano

Publicação: 2 de janeiro de 2010

escrito em:
28 de Julho de 2003

De início não sabia o que estava acontecendo, mas foi em seguida que, pela primeira vez, sentiu-se confuso e realmente consciente de qualquer coisa.

E muito embora não apresentasse qualquer benefício emprestado por uma linguagem ou um padrão de símbolos elementar até aquele momento, sua existência se daria se daria pela próxima centena de anos, à luz daquela sensação estranha de ser capaz de ter sensações.

Ninguém, claro, preocupou-se em municiá-lo de algo tão sofisticado como uma consciência de fato mas, para ele, inconsciente disso, era incapaz sequer de questionar tal constatação, o mundo perceptível não era mais do que era… uma imagem que lhe vertia a realidade graças a elementos químicos em seu corpo que eram sensíveis aos arredores.

Dali para frente, depois de um breve período de amadurecimento, ele oscilaria entre previsíveis padrões de comportamento, decisão e aprendizado, com pouco ou quase nenhum espaço para variações senão a memória de sua relação com o ambiente.

Não se lembraria, provavelmente, de quase nada deste sentimento estrangeiro de sentir pela primeira vez. O “costume”, nele previsto e calculado, lhe conferia maior capacidade de concentração e adaptação necessários ao sentido de sua existência.

Jamais teria noção da existência dos milhões de outros que, como ele, eram primogênitos daquela linha de montagem; jamais saberia dos bilhões de outros que seriam processados depois dele naquela microscópica esteira de proteínas.

Sim, já se acercava do sentimento do “sentir” antes mesmo de estar pronto e, depois de muitos eventos para ele ininteligíveis, nasceu… somente para ser congelado em seguida e, uma vez mais deixar de existir sem mesmo saber o porquê de o terem trazido a “ser”.

Quando o acordaram nem soube bem que deixara sua rarefeita consciência por tanto tempo. Estava então em um ambiente diferente e, pelo que entendeu do que sentia, cercado de outros como ele, com pequenas variações individuais, e com três grandes distinções de gênero.

Seu amadurecimento fora tão rápido quanto o de seus semelhantes e, nenhum parecia estar mais preparado que o outro; e entretanto ele se sentia isolado, como se fizesse parte de uma coisa e os outros de outra, ainda que não fosse capaz de estabelecer relações cognitivas tão complexas.

Como ele também se sentiam os outros em seu arremedo de reflexão, em sua rudimentar capacidade de fruir a realidade que a sua frente era disposta.

Todos sentiam a vertiginosa mudança de padrões e as violentas flutuações resultantes do pressionar do êmbolo daquela seringa que não viam, não percebiam e sequer sabiam existir.

De algum modo, ao adentrar aquele universo novo, sentiam-se mais preparados e notavam flutuações e leituras mais hospitaleiras e familiares. Era, afinal, como se já houvessem estado ali em outra ocasião.

* * *

Os solavancos periódicos não pareciam incomodar ao resto e, teria de admitir, caso se importasse em fazê-lo, que quase não eram perceptíveis… sentia-os, contudo, e voltava sua atenção para eles sempre que ocorriam. Para ele, de tempos em tempos, toda ondulação de rotina era perturbada por aqueles espasmos da realidade a sua volta.

Eram, para ele, estes os eventos mais significativos do dia. Arrebanhavam-se ao longo de extensas fibras de tecido, cujas extremidades jamais poderiam divisar. Elas sumiam no horizonte de ondulações que nublavam todas as direções.

Trocavam poucas informações uns com os outros, nada mais que um “comecei aqui” ou um “terminei esta parte”. Um deles, a cada grupo de semelhantes, não parava de proferir instruções.

Fazia tempo que aprendera como mover-se pelo líquido viscoso e pelos reincidentes e numerosos glóbulos que passavam desabalados. Fazia-o muito bem, na verdade, e sabia disso. Não entendia o porquê nem se importava em se ocupar do motivo de ser incapaz de se aprofundar no raciocínio e perceber que eram seus semelhantes similares entre si, sem ser exatamente iguais.

Quase conseguia refletir, sem realmente fazê-lo, acerca de sentir não apenas estímulos do meio em que se encontrava, como as peculiares ondulações proferidas pelo líder de seu grupo, mas também estímulos internos. Mesmo com sua pouca inclinação para a reflexão, era capaz de identificá-los e saber o que fazer com eles. Ele mesmo poderia proferí-las, acreditava, talvez até pudesse fazê-lo, apenas para satisfazer suas necessidades de reagir a tais estímulos.


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Categorias Contos, Sistema: Sol

6 Respostas para
     “Nano”

  • Alliah Art Insane disse: 2 de janeiro de 2010

    Como estudante da área das Ciências Biomédicas ou Biológicas (cada um chama de um jeito), acho que sou um tanto quanto suspeita pra comentar esse conto. Mas devo dizer que gostei bastante! É um ponto de vista bem interessante e me fez lembrar de alguns projetos rascunhados que tenho em mente sobre histórias bioquímicas/celulares/moleculares…
    O final é instigante e deixa a imaginação correndo solta, tentando desvendar as consequências…
    Parabéns, gostei bastante mesmo!

  • marcosvoador disse: 2 de janeiro de 2012

    O paralelo não é perfeito, mas quando Alan Moore roteirizou por algum tempo a série em quadrinhos Monstro do Pântano, criou o conceito de máquinas se comportando como organismos vivos. Mais exatamente: um mundo inteiro tomado por máquinas especializadas que emulavam funções orgânicas diversas: obter energia, processá-la, descartar o não utilizável, formando uma única inteligência. Aliás, uma fêmea, capaz de se reproduzir. Como eu disse, não há exatamente um paralelo, mas apenas a idéia básica de organismos sintéticos que ultrapassam o limiar do comportamento programado para uma etapa de comportamento estimulado pelo meio externo, modificando-o e sendo por ele modificado. Não sei se me fiz entender, mas de todo modo gostei do texto.

  • Bruno Accioly disse: 2 de janeiro de 2012

    O conceito é bem mais antigo que Moore, na verdade.

    Arthur C. Clarke brincou bastante com isso, inclusive no renomado “Dial F for Frankenstein”, onde a rede de telefonia teria alcançado tal complexidade que se transformou em uma rede neural.

    Talvez Isaac Asimov tenha sido o mais prolífico autor discutindo o tema em mais de 200 títulos, alguns deles até bem próximos da questão levantada neste conto.

    Creio que, nos idos de 2003, quando escrevi este conto, estava influenciado pela idéia da nanotecnologia mas também pela contaminação do meio ambiente por produtos da nanotecnologia. A inspiração passou pelo conceito de Maquinas de Von Newman e por qual seria o Limiar da Inteligência Artificial.

    Sua referência é bem interessante e inusitada. Eu diria que as influências para este aqui residem entre meados do Século XX e fins do Século XIX, mas essencialmente o assunto faz parte do zeitgeist dos últimos três séculos, se manifestando nos mais diversos formatos em uma variação livre de Frankenstein.

  • marcosvoador disse: 2 de janeiro de 2012

    Você tem razão. A idéia em si, do surgimento da vida a partir do inanimado, é antiga e já antes de Frankenstein e pode ser encontrada no lenda judaica do Golem. Há um poema interessante de Jorge Luis Borges sobre a figura histórica do rabino Judá Leão, de Praga. Veja a última estrofe:[ En la hora de angustia y de luz vaga,/ en su Golem los ojos detenía./¿Quién nos dirá las cosas que sentía/ Dios, al mirar a su rabino en Praga?]. Note o paralelo dos dois criadores, do rabino a seu golem e de Deus a seu rabino. Mas saí do foco. Seu texto trabalhava mais (ou assim me parece) com o conceito de inteligência como uma relação de retro-alimentação entre o organismo e o meio externo. Por sua vez, o conto de Clarke postulava a inteligência surgindo da complexidade crescente, uma, por assim dizer, adição de sinapses.

  • Bruno Accioly disse: 2 de janeiro de 2012

    Pois é…

    Eu me lembro bem de quando surgiu a idéia do enredo.
    Ficava me perguntando quão adaptável seria um “organismo” sintético, fosse sua rede neural interna (ou sua estrutura algorítmica de pensamento) viciada em uma série de rotinas específicas.

    Para mim a parte mais interessante do conto viria após o seu final, mas foi delicioso trabalhar o heroísmo de uma criatura tão precária de estruturas mentais e tão limitada em capacidade de transcendência.

    Fico imaginando quais seriam as próximas aventuras deste campeão inorgânico no fundo de um mar de vida orgânica…

  • marcosvoador disse: 2 de janeiro de 2012

    Justamente o que me ocorreu ao final do conto, as possibilidades de continuação da história no mar. E são muitos os trajetos possíveis: como se comportaria a criatura? Considerando-se que, em tese, um nanorrobô é um organismo que se autorrepara, daí para a replicação é um passo. E mais, ainda em tese, a incipiente autoconsciência poderia se tornar cada vez mais acentuada. Note que um microrganismo é virtualmente imortal em tais condições. Ainda existe a questão do surgimento de variações especializadas que poderiam combinar-se entre si, abrindo caminho para o surgimento de organismo multicelulares. Afinal, o que somos nós senão um sistema de diferentes espécies de micro-organismos em simbiose? A criatura, o herói, seria um organismo sui generis: o único com possibilidades de ser ele mesmo depositário de sua história. Em termos humanos, seria como se nós tivéssemos uma memória racial, da espécie e nos víssemos como um único indivíduo mudando todo o tempo: célula, metazoa, peixe, peixe pulmonado, réptil, mamífero, primata e assim por diante. Um arco de possibilidades muito interessante. Você deveria considerar uma continuação com carinho.

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