Livre Arbítrio

Publicação: 23 de dezembro de 2009

escrito em:
27 de Junho de 1990

Havia mais de seis horas que meu pessoal não voltavam. Tentei não me preocupar tanto nas primeiras horas, mas todos sabíamos que não era prudente passar mais de trinta minutos fora da base, a não ser em missões de sabotagem contra os Verdugos. Não que a base fosse grande coisa – apenas um blindado militar, de um exército que já não mais existia, escondido nos destroços do edifício… o Marquês de Herval. Pelo menos tínhamos muitos livros para ler…

Não havia graça (joguei o livro ao chão). Só me aventurava no amontoado de livros do subsolo por cerca de dez minutos. Estava com medo de ir atrás deles. Nunca excurcionávamos sozinhos no centro da cidade. Éramos sempre em grupos de três, ou quatro, pois só assim conseguia-se subjugar um Verdugo (um ruído, e corri para o lado do blindado, abrindo a porta deslizante com um toque). As metralhadoras daqueles sólidos monstros de metal, e seus potentes membros hidráulicos, lhes conferiam uma força grande demais.

Infelizmente eu não sabia de onde eles haviam vindo, mas isso não fazia mais muita diferença. Algum maluco os montou com um propósito desconhecido. Só sabíamos o que víamos. Eles chegavam e diziam em tom monocórdio: “É favor vir em paz…”, e invariavelmente atiravam, prendendo o corpo da vítima ao seu. Em alguns segundos deixava cair o corpo sem cérebro e sem coluna vertebral. Pela manhã encontrávamos a massa em decomposição ao lado dos ossos estilhaçados no asfalto, já esburacado, da Avenida Rio Branco. Queimávamos tudo…

Já havíamos tentado sair do Centro da Cidade, mas eles não nos deixavam. Eram muitos, e deviam ter se apossado dos armamentos pesados nas bases militares da área. No entanto, mesmo não podendo nos afastar muito daquele ponto, sabíamos que haviam outros grupos rebeldes, pelo menos na Zona Norte. Havíamos captado transmissões, entre dois grupos, no rádio do tanque. Foi desta forma que ouvimos pela primeira vez a palavra Verdugo. Agora, contudo, não ouviríamos nada mais… o rádio quebrara… um acidente estúpido.

Já olhava impaciente para os quatro monitores, ligados a câmeras de vídeo escondidas em protegidos pontos estratégicos do lado de fora do tanque. Estava escurecendo…


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