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	<title>Sistema: Sol Crônicas</title>
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	<description>Ecos de um Futuro possível passados quase sempre em um lugar chamado Sistema: Sol</description>
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		<title>Nano</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Jan 2010 10:24:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[escrito em:28 de Julho de 2003
De início não sabia o que estava acontecendo, mas foi em seguida que, pela primeira vez, sentiu-se confuso e realmente consciente de qualquer coisa.
E muito embora não apresentasse qualquer benefício [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />28 de Julho de 2003</em></p>
<p>De início não sabia o que estava acontecendo, mas foi em seguida que, pela primeira vez, sentiu-se confuso e realmente consciente de qualquer coisa.</p>
<p>E muito embora não apresentasse qualquer benefício emprestado por uma linguagem ou um padrão de símbolos elementar até aquele momento, sua existência se daria se daria pela próxima centena de anos, à luz daquela sensação estranha de ser capaz de ter sensações.</p>
<p>Ninguém, claro, preocupou-se em municiá-lo de algo tão sofisticado como uma consciência de fato mas, para ele, inconsciente disso, era incapaz sequer de questionar tal constatação, o mundo perceptível não era mais do que era&#8230; uma imagem que lhe vertia a realidade graças a elementos químicos em seu corpo que eram sensíveis aos arredores.</p>
<p>Dali para frente, depois de um breve período de amadurecimento, ele oscilaria entre previsíveis padrões de comportamento, decisão e aprendizado, com pouco ou quase nenhum espaço para variações senão a memória de sua relação com o ambiente.</p>
<p>Não se lembraria, provavelmente, de quase nada deste sentimento estrangeiro de sentir pela primeira vez. O “costume”, nele previsto e calculado, lhe conferia maior capacidade de concentração e adaptação necessários ao sentido de sua existência.</p>
<p>Jamais teria noção da existência dos milhões de outros que, como ele, eram primogênitos daquela linha de montagem; jamais saberia dos bilhões de outros que seriam processados depois dele naquela microscópica esteira de proteínas.</p>
<p>Sim, já se acercava do sentimento do “sentir” antes mesmo de estar pronto e, depois de muitos eventos para ele ininteligíveis, nasceu&#8230; somente para ser congelado em seguida e, uma vez mais deixar de existir sem mesmo saber o porquê de o terem trazido a “ser”.</p>
<p>Quando o acordaram nem soube bem que deixara sua rarefeita consciência por tanto tempo. Estava então em um ambiente diferente e, pelo que entendeu do que sentia, cercado de outros como ele, com pequenas variações individuais, e com três grandes distinções de gênero.</p>
<p>Seu amadurecimento fora tão rápido quanto o de seus semelhantes e, nenhum parecia estar mais preparado que o outro; e entretanto ele se sentia isolado, como se fizesse parte de uma coisa e os outros de outra, ainda que não fosse capaz de estabelecer relações cognitivas tão complexas.</p>
<p>Como ele também se sentiam os outros em seu arremedo de reflexão, em sua rudimentar capacidade de fruir a realidade que a sua frente era disposta.</p>
<p>Todos sentiam a vertiginosa mudança de padrões e as violentas flutuações resultantes do pressionar do êmbolo daquela seringa que não viam, não percebiam e sequer sabiam existir.</p>
<p>De algum modo, ao adentrar aquele universo novo, sentiam-se mais preparados e notavam flutuações e leituras mais hospitaleiras e familiares. Era, afinal, como se já houvessem estado ali em outra ocasião.</p>
<p><center>* * *</center></p>
<p>Os solavancos periódicos não pareciam incomodar ao resto e, teria de admitir, caso se importasse em fazê-lo, que quase não eram perceptíveis&#8230; sentia-os, contudo, e voltava sua atenção para eles sempre que ocorriam. Para ele, de tempos em tempos, toda ondulação de rotina era perturbada por aqueles espasmos da realidade a sua volta.</p>
<p>Eram, para ele, estes os eventos mais significativos do dia. Arrebanhavam-se ao longo de extensas fibras de tecido, cujas extremidades jamais poderiam divisar. Elas sumiam no horizonte de ondulações que nublavam todas as direções.</p>
<p>Trocavam poucas informações uns com os outros, nada mais que um “comecei aqui” ou um “terminei esta parte”. Um deles, a cada grupo de semelhantes, não parava de proferir instruções.</p>
<p>Fazia tempo que aprendera como mover-se pelo líquido viscoso e pelos reincidentes e numerosos glóbulos que passavam desabalados. Fazia-o muito bem, na verdade, e sabia disso. Não entendia o porquê nem se importava em se ocupar do motivo de ser incapaz de se aprofundar no raciocínio e perceber que eram seus semelhantes similares entre si, sem ser exatamente iguais.</p>
<p>Quase conseguia refletir, sem realmente fazê-lo, acerca de sentir não apenas estímulos do meio em que se encontrava, como as peculiares ondulações proferidas pelo líder de seu grupo, mas também estímulos internos. Mesmo com sua pouca inclinação para a reflexão, era capaz de identificá-los e saber o que fazer com eles. Ele mesmo poderia proferí-las, acreditava, talvez até pudesse fazê-lo, apenas para satisfazer suas necessidades de reagir a tais estímulos.</p>
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		<title>A Coisa mais Importante</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Dec 2009 06:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[escrito em:29 de Abril de 1994
&#8220;Na manhã de ontem, rádio-astrônomos de Morkovics, no lado escuro de Luna, receberam um volumoso pacote de informações provenientes da estrela batizada de Solenne, distante em mais de vinte anos-luz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />29 de Abril de 1994</em></p>
<p>&#8220;Na manhã de ontem, rádio-astrônomos de <em>Morkovics</em>, no lado escuro de <em>Luna</em>, receberam um volumoso pacote de informações provenientes da estrela batizada de <em>Solenne</em>, distante em mais de vinte anos-luz do nosso Sol. Tais informações, coletadas e processadas pelas naves exploradoras daquele sistema, e que viajaram por mais de quatrocentos anos, coroa de êxito um empreendimento já tão criticado no passado.</p>
<p>“O recebimento da extensa mensagem prova que os esforços quadri-centenários da <em>Liga Governamental</em> &#8211; no sentido de viabilizar o projeto <em>MegaParsecs</em> &#8211; foram muito mais que meramente importantes. Os dados emitidos por uma das naves colonizadoras em <em>Solenne</em> parecem indicar a existência de outras formas de vida inteligente no Universo.</p>
<p>“A evidência, infelizmente, não prova que a hipotética raça alienígena ainda exista, mas que já tenha existido há, pelo menos, dez mil anos. Não é possível provar, ainda, que tais seres tenham vivido em algum planeta que orbite <em>Solenne</em>, e a maior parte dos cientistas parece bastante cética a esse respeito.</p>
<p>“O especialista cientifico Abraham Sanmbar, responsável pelo achado, afirmou que a descoberta é um marco na história do homem e o evento mais importante de todos os tempos para a raça humana. Em conferência, na noite de ontem, o conselho da <em>Liga</em> se pronunciou através de seu porta-voz, afirmando que ´o artefato descoberto no <em>Cinturão de Asteróides de Solenne</em> eclipsa quaisquer problemas sócio-administrativos ressaltados pela oposição nos últimos duzentos anos´.</p>
<p>“A nau colonizadora <em>Maelstrom</em>, <em>paneuropéia</em>, que enviou a nave tripulada de pesquisas ao Cinturão de Solenne, inseriu um comunicado de seu comandante para as nações amigas do <em>Eixo Terra-Luna-Marte</em> no pacote enviado da estrela distante, já que, quando de sua partida, o <em>Sistema Joviano</em> ainda não fazia parte da <em>Liga</em>&#8230;&#8221;</p>
<p><center>* * *</center></p>
<p>A manobra política de seu superior não o incomodara. O que realmente o deixara nervoso foi em quanto as coisas mudaram após a detecção do material num dos asteróides do cinturão.</p>
<p>&#8230;Quando uma falha dos sistemas os afastaram do <em>Gigante Gasoso</em>, o maior planeta na órbita de <em>Solenne</em>, Sanmbar não tinha mais dúvidas de que viajara hibernando por mais de quatrocentos anos na <em>Maelstrom</em> apenas para morrer no espaço entre nada e lugar nenhum. “A vida era assim mesmo”&#8230; ao menos a vida de um cosmonauta.</p>
<p>Ele e sua tripulação haviam singrado o espaço entre <em>Dalmus</em> e o <em>Gigante Gasoso</em>, dentro da nave de pesquisas, sem maiores problemas. Sentia-se bem desde o início naquela missão. Estava em seu elemento&#8230;</p>
<p>Mais de trinta naves se amontoavam na órbita de <em>Dalmus</em>, o planeta alvo do projeto <em>MegaParsecs</em> de colonização planetária. Esse nunca fora seu conceito de aventura. Em sua visão, era pura covardia colonizar um planeta lançando mão de tantos recursos.</p>
<p>A missão que lhe fôra confiada, bem como ao resto dos homens e mulheres a bordo da <em>Fellini</em> era instigante. Eles guardavam um segredo muito importante para o futuro da <em>Maelstrom</em> – sua nau-capitânia – uma das naves em órbita de <em>Dalmus</em>.</p>
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		<title>Crise de Identidade</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Dec 2009 04:07:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[escrito em:13 de Dezembro de 1990
Diário de Percival F.Corianow, 
21 de Junho, 09:50 MCM (Meridiano Central de Marte), 2116.
“Agora estou mais conformado&#8230; Andei pensando muito no que aconteceu e acho que eles tiveram um fundo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />13 de Dezembro de 1990</em></p>
<p><strong>Diário de Percival F.Corianow, </strong><br />
<em>21 de Junho, 09:50 MCM (Meridiano Central de Marte), 2116.</em></p>
<p>“Agora estou mais conformado&#8230; Andei pensando muito no que aconteceu e acho que eles tiveram um fundo de razão. O problema é que andei pensando por dois anos, e já estou um tanto desconfortável. Por isso, penso eu, comecei a escrever este de diário. Imagino vocês conjecturando, antes de eu começar, que se o Pentágono resolveu mandar um ‘embaraço’ para o Cárcere de Alta Segurança de <em>Noctis Maze</em>, em Marte, é porque, provavelmente, era um embaraço e tanto&#8230; Nada! Eu não passo de um nada! Do contrário não teria me metido em algo assim.</p>
<p>“A cela é um tanto fria, mas posso observar os canais tubulares de <em>Lowell 5</em>, que abastecem o <em>canyon</em> de <em>Vallis Marineris</em> para saciar o desejo do Homem de ter um mar feito por ele mesmo. Lá embaixo, os poucos homens que se faziam ver, não usavam os antigos trajes espaciais, já que a rarefeita mas não inexistente nova atmosfera de Marte era suficiente para que usassem apenas máscaras de oxigênio. Por vezes eu via um ou outro trabalhador usando bermudas! Quem diria&#8230;</p>
<p>“Já estou farto de bancar o escritor, e o pior é que não paro de pensar em Rachel, minha esposa, vocês sabem&#8230; Não sabem, certo? Acontece que ela não aparece há dois meses, e tinha ficado de vir me visitar sempre.</p>
<p>“Vocês não podem me culpar. Imaginem-se em sua bela casa, com sua bela mulher, assistindo a um belo documentário holográfico em seu novo (e belo) projetor, comprado com o resto do dinheiro que ganhara por serviços prestados ao seu contratante &#8211; como astronauta. Agora imaginem que, no meio da melhor parte, aquela na qual você e ela já não mais estão prestando atenção ao documentário e estão quase às vias de fato, um trio de ‘belos’ homens em &#8216;belos&#8217; ternos entram em sua bela casa, sob ordens do mesmo maldito contratante daquela, também maldita, missão que você julgara fracassada havia oito anos.</p>
<p>“Não, a missão não fracassara por minha causa, mas por problemas de ordem técnica. Problema deles! Pelo menos foi o que disseram a mim e aos outros quatro homens que comigo participaram da missão. eu seria um reles personagem secundário dentro da nave, que se ocuparia apenas da manutenção e limpesa (Mas não quero me adiantar. Tenho de deixar o melhor para o final, não tenho?).</p>
<p>“Enquanto os outros eram típicos especialistas com formação acadêmico-científica: exogeólogos, xenobiólogos, e outras coisas do tipo &#8211; alternando prefixos inusitados &#8211; vocês poderiam me chamar, só para não romper o padrão, de exo-pau-para-toda-xeno-obra.</p>
<p>“Talvez vocês estejam achando toda essa bobagem bastante enigmática. Não é não, sou eu que não tenho lá tanta habilidade com as palavras mesmo. Quando as coisas no mundo começam a chegar ao ponto em que chegaram é que eu começo a pensar se aquele tal de <em>Cresto</em> estava certo ou não. Não sou religioso e não acredito em deuses, ou qualquer outro florismo subjetivista usado para tornar situações bizarras como essa algo mais aceitável.</p>
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		<title>Desta vez é Diferente</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Dec 2009 11:44:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[escrito em:21 de Setembro de 1990
Era bem diferente de tudo que eu já havia visto. Meu traje de mergulho podia não ser tão flexível quanto eu gostaria, mas servia, até que meu próprio equipamento de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />21 de Setembro de 1990</em></p>
<p>Era bem diferente de tudo que eu já havia visto. Meu traje de mergulho podia não ser tão flexível quanto eu gostaria, mas servia, até que meu próprio equipamento de mergulho chegasse de Gamow, de onde fui deportado. Não gostava de pensar naquelas coisas, embora, por vezes, fosse impossível. Estava quase chegando a margem, enquanto me deslumbrava com o escarlate das rochas submersas.</p>
<p>Eu não devia pesar mais de dois quilos, estando a dez metros da superfície, e me sentia bastante confortável, considerando que meu peso na Terra era de noventa quilos. Não era gordo, não&#8230; Eu até que me exercitava bastante para meus oitenta e dois anos. A verdade é que não havia quem dispensasse o prazer de nadar na gravidade de pouco mais de um terço.</p>
<p>Emergi diante de Dorian, o Sol por trás dele.</p>
<p>- Que lindo, não? &#8211; Já havia notado a expressão de irritação em seu rosto: nenhuma novidade&#8230; tentei ser paciente.</p>
<p>- Por que você entrou, Tadeu? Não sabe que eu não concordo com essa coisa toda? &#8211; Percebi que ele rangia os dentes.</p>
<p>- Desculpe-me, Dorian&#8230; &#8211; Comecei, saindo da água &#8211; &#8230;é que não pude resistir. Por que, afinal, você resolveu comprar esta casa à beira-mar? &#8211; Dorian bufou &#8211; Vai me dizer que nunca deu um mergulho?</p>
<p>Ele usava um calção de banho azul e um grosso roupão aquecido eletricamente. Comecei a tirar meu traje &#8211; &#8230;Não, eu nunca dei um mergulho e, como meu amigo, preferia que também não o fizesse. &#8211; Virou-se, quase entornando o líquido do copo cheio de Grendel &#8211; Quanto a casa, foi pedido de Sarah. &#8211; Falou enquanto subia as escadas para a grande varanda do segundo andar.</p>
<p>Talvez estivesse sendo um mau hóspede, afinal&#8230; Acabei de tirar o traje e peguei meu roupão térmico, sentindo o frio costumeiro. Olhei em volta. A paisagem era bastante avermelhada, e não havia outra casa visível. “Vão haver mais”, pensei em silêncio. Andei até a beirada da escada e fechei o roupão. Já sabia que Dorian precisava desabafar. Subi.</p>
<p>Ele estava deitado numa daquelas poltronas em estilo “pós-pós”, em fibra sintética, que eu tanto odiava, bebendo seu Grendel. Sorvia o líquido verde escuro com irritação. Eu gostava dele&#8230; Se parecia bastante comigo. Eramos ambos rebeldes em essência e, embora ele fosse ainda mais radical, o Luna Libre não era exatamente uma instituição religiosa. Depois da sabotagem no sistema abastecedor da Embaixada da Terra, fora Dorian que conseguira que eu fosse apenas deportado. O que, considerando o ódio do Diretor da Astropol por minha pessoa, fora uma verdadeira façanha. Dinheiro não era problema para Dorian&#8230; muito menos poder.</p>
<p>Sentei-me perto dele, em outra poltrona. A visão das águas calmas daquele mar jovem não me deixavam acreditar que Dorian podia ter problemas.</p>
<p>- Dorian&#8230;</p>
<p>- Qual o problema, Tadeu? Não posso olhar para essa maldita praia? Te incomodo? &#8211; Gritou e virou-se novamente para as leves ondulações.</p>
<p>- Calma, amiko. Estou do seu lado, lembra? Onde está Sarah?</p>
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		<title>Livre Arbítrio</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Dec 2009 17:21:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[escrito em:27 de Junho de 1990
Havia mais de seis horas que meu pessoal não voltavam. Tentei não me preocupar tanto nas primeiras horas, mas todos sabíamos que não era prudente passar mais de trinta minutos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />27 de Junho de 1990</em></p>
<p>Havia mais de seis horas que meu pessoal não voltavam. Tentei não me preocupar tanto nas primeiras horas, mas todos sabíamos que não era prudente passar mais de trinta minutos fora da base, a não ser em missões de sabotagem contra os Verdugos. Não que a base fosse grande coisa &#8211; apenas um blindado militar, de um exército que já não mais existia, escondido nos destroços do edifício&#8230; o Marquês de Herval. Pelo menos tínhamos muitos livros para ler&#8230;</p>
<p>Não havia graça (joguei o livro ao chão). Só me aventurava no amontoado de livros do subsolo por cerca de dez minutos. Estava com medo de ir atrás deles. Nunca excurcionávamos sozinhos no centro da cidade. Éramos sempre em grupos de três, ou quatro, pois só assim conseguia-se subjugar um Verdugo (um ruído, e corri para o lado do blindado, abrindo a porta deslizante com um toque). As metralhadoras daqueles sólidos monstros de metal, e seus potentes membros hidráulicos, lhes conferiam uma força grande demais.</p>
<p>Infelizmente eu não sabia de onde eles haviam vindo, mas isso não fazia mais muita diferença. Algum maluco os montou com um propósito desconhecido. Só sabíamos o que víamos. Eles chegavam e diziam em tom monocórdio: “É favor vir em paz&#8230;”, e invariavelmente atiravam, prendendo o corpo da vítima ao seu. Em alguns segundos deixava cair o corpo sem cérebro e sem coluna vertebral. Pela manhã encontrávamos a massa em decomposição ao lado dos ossos estilhaçados no asfalto, já esburacado, da Avenida Rio Branco. Queimávamos tudo&#8230;</p>
<p>Já havíamos tentado sair do Centro da Cidade, mas eles não nos deixavam. Eram muitos, e deviam ter se apossado dos armamentos pesados nas bases militares da área. No entanto, mesmo não podendo nos afastar muito daquele ponto, sabíamos que haviam outros grupos rebeldes, pelo menos na Zona Norte. Havíamos captado transmissões, entre dois grupos, no rádio do tanque. Foi desta forma que ouvimos pela primeira vez a palavra Verdugo. Agora, contudo, não ouviríamos nada mais&#8230; o rádio quebrara&#8230; um acidente estúpido.</p>
<p>Já olhava impaciente para os quatro monitores, ligados a câmeras de vídeo escondidas em protegidos pontos estratégicos do lado de fora do tanque. Estava escurecendo&#8230;</p>
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		<title>Valeu a Pena?</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 06:21:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[escrito em:21 de Junho de 1990
Abri os olhos e fiquei um tanto assustado, até que recordei onde estava. As luzes aumentavam de intensidade lentamente, e a linha d’água vinha em direção à “máscara de mergulho”. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />21 de Junho de 1990</em></p>
<p>Abri os olhos e fiquei um tanto assustado, até que recordei onde estava. As luzes aumentavam de intensidade lentamente, e a linha d’água vinha em direção à “máscara de mergulho”. O tanque de água superpesada, de baixíssimo ponto de congelamento, estava esvaziando. Ainda devia estar bastante frio, mas o macacão me protegia naquele momento. Comecei a sentir as lufadas de ar aquecido.</p>
<p>Levantei-me sentindo o peso do tempo e da falta de atividade, embora a maior parte de meus músculos tenham sido cautelosamente tratados com drogas especiais. O visor transparente da cápsula deslizou para o lado. Tirando a máscara esfreguei os olhos e procurei as outras cinco câmaras criogênicas. O comandante e os outros estavam acordando. Todos sabíamos o que aquilo significava&#8230;</p>
<p>Quando os cientistas, lá na Terra, receberam os primeiros sinais de rádio proveniente de Procyon, o mundo todo virou de ponta-cabeça. Tudo indicava que não estávamos sós no Universo. Infelizmente não pudemos manter um diálogo, devido a distância &#8211; já que uma sessão de perguntas e respostas com tal civilização demoraria mais de vinte e dois anos &#8211; mas soubemos que sua constituição era basicamente humana. A natureza arranja, ao que tudo indica, as mesmas soluções para os mesmos problemas.</p>
<p>Em sua mensagem, após um árduo período de decodificação, foi conseguido observar que eles diziam não possuir tecnologia para viagem inter-estelar, e que receberiam de braços abertos uma visita alienígena amistosa. Foram três anos antes que a mensagem fosse inteiramente recebida, e foi constatado que esta se repetiria indefinidamente.</p>
<p>Havia décadas, o mundo ouvia sobre viagens inter-estelares como coisa de ficção científica, e nem os vinte anos que se passaram desde o início da construção de uma variação da nave-sonda estelar Dædalus, projetada pela Sociedade Interplanetária Britânica, foram suficientes para fazer com que se acostumassem com a idéia. É certo que era uma expedição militar, contudo isso não retirava o mérito do projeto.</p>
<p>Desde que foram recebidos os sinais até o término do maior veículo espacial feito pelo Homem, transcorreram trinta anos. Os Procyonianos, como convencionou-se chamá-los, por certo não se incomodariam&#8230; Afinal sua mensagem fora lançada em todas as direções no espaço e, na verdade, eles nem tinham como dar-se conta de terem contatado “alguém”, mesmo porque os governos da Terra, em consenso, resolveram não emitir qualquer aviso, “nada além de um contato direto poderia ser mais apropriado”, argumentavam.</p>
<p>Não tínhamos tempo para olhar pelas “vigílias” ou telescópios para avistar o motivo pelo qual havíamos viajado por mais de cem trilhões de quilômetros por cerca de cento e sessenta anos. Na verdade só cento e cinqüenta e nove anos e alguns meses se passaram dentro da nave, conseqüência da dilatação relativística do tempo, mensurável quando em grandes velocidades. Estaríamos ocupados pelas próximas horas enquanto a nave adentrasse as órbitas exteriores do Sistema Procyon.</p>
<p>Eu não parava de pensar em quão diferentes eles seriam de nós. Embora fossem dotados de características humanóides, como descreveram genericamente, em termos científicos não seria possível que seu planeta impusesse à sua biologia as mesmas exigências que a Terra veio impondo a nós por milhões de anos. Como seriam? Qual seria a natureza de seus costumes?</p>
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		<title>Pioneer 12</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 13:05:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Phoebe]]></category>
		<category><![CDATA[Sistema: Sol]]></category>
		<category><![CDATA[Engenharia de Asteróides]]></category>
		<category><![CDATA[Inteligência Artificial]]></category>
		<category><![CDATA[Reciclagem em Carbono]]></category>
		<category><![CDATA[Singularidades]]></category>

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		<description><![CDATA[escrito em:21 de Junho de 1990
Da janela panorâmica de Phœbe , outrora satélite de Marte, a visão era fantástica&#8230; Contra o tecido negro do espaço era possível divisar a Usina Cilíndrica, a cerca de trinta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />21 de Junho de 1990</em></p>
<p>Da janela panorâmica de Phœbe , outrora satélite de Marte, a visão era fantástica&#8230; Contra o tecido negro do espaço era possível divisar a Usina Cilíndrica, a cerca de trinta quilômetros de distância. Ela parecia um brinquedo, um brinquedo no qual haviamos trabalhado por mais de um ano. Na época em que Phœbe , equipado com toda sorte de equipamentos astronáuticos e potentes propulsores, saiu do Sistema Solar, provavelmente, o tempo que tivemos, parecesse muito curto para montar uma estrutura tão complexa como a Usina. Era um engenho experimental e, àquela distância, não parecia ter seus quinhentos metros de comprimento por trinta e cinco de raio, embora se mostrasse evidentemente grande. Tais medidas, eu acreditava, espantariam até mesmo os capazes técnicos do já longínquo planeta Terra.</p>
<p>Centenas de gerações haviam se passado, tantas que era possível que a própria Terra já não estivesse mais habitada. Toda minha vida eu havia passado no interior de Phœbe , bem como meus pais, avós, bisavós e boa parte de minha família ascendente. Este sempre fôra o problema com as viagens em velocidades relativísticas&#8230; Por isso, Phœbe era encarado por todos os seus habitantes como um mundo individual, seu planeta-mãe &#8211; assim como os povos da Terra encaravam o planeta em que nasceram. Era verdade que, por termos conseguido alcançar o potencial propulsor equivalente à pouco mais que dez porcento da velocidade da luz em certas viagens, os efeitos relativísticos causavam um retardo no fator tempo do interior da nave em relação ao resto do Universo. Tais efeitos eram já bastante mensuráveis, no entanto, poucas vezes alcançamos tais velocidades já que as manobras de frenagem eram um processo dispendioso em termos de recursos.</p>
<p>Nosso planeta &#8211; era como o encarávamos &#8211; era um asteróide, não mais que isso. Há muito ele orbitara um mundo que gritara em altos brados contra a decisão do resto do Sistema de despojá-lo de sua lua. A primeira missão do grande asteróide Phœbe , logo que deixara para trás o abraço gravitacional de seu planeta mãe &#8211; Marte &#8211; foi uma viagem até a estrela Procyon, símbolo da esperança humana de acertar nas primeiras tentativas. Procyon possuía um sistema planetário, era verdade, mas não vida, muito menos vida inteligente. Valeu a intenção, realmente, mas essa é a vigésima terceira missão de Phœbe , é nossa oitava passagem próxima à um sistema planetário, e não encontramos forma alguma de vida inteligente até muito tempo depois de começar nossa busca.</p>
<p>Isso tudo faz parte de uma história muito longa, a qual não estou apto a contar, já que escolhi como carreira a Engenharia Energética. Entretanto, como sempre, eu me perdia em elucubrações ao divisar a negritude do espaço e as redondezas do asteróide.</p>
<p>Dois pequenos ônibus espaciais, que cruzavam o caminho entre o “Seixo” &#8211; Phœbe &#8211; e a Usina, quase roçaram nos longos cabos de fribras-de-carbono, que se estendiam por milhares de quilômetros desde a construção cilíndrica. Os cabos eram o produto de máquinas sintetizadoras dedicadas a transformação de compostos orgânicos diversos &#8211; refugos das industrias de Phœbe &#8211; nos fortíssimos fios que se trançavam para formar as &#8220;cordas&#8221; que vinhamos carregando por centenas de anos. De umas dezenas de anos para cá, com uma melhor idéia de sua possível utilização, vinhamos reprocessando seu material para mesclar a ele uma série de elementos de dureza propositadamente maior.</p>
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		<title>Ponto de Vista</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 11:27:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Accioly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Sistema: Sol]]></category>
		<category><![CDATA[Realidade Virtual]]></category>
		<category><![CDATA[Saga Doktrino]]></category>

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		<description><![CDATA[escrito em:03 de Setembro de 1990
&#8220;Lembro de nove mundos.&#8221;
- Edda Islandesa de Snorri Sturluson, 1200 D.C.
&#8220;Existem muitos mundos ou haverá um só? Esta é uma das perguntas mais nobres e elevadas no estudo da natureza.&#8221;
- [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right"><em>escrito em:<br />03 de Setembro de 1990</em></p>
<p><em>&#8220;Lembro de nove mundos.&#8221;</em><br />
<strong>- Edda Islandesa de Snorri Sturluson, 1200 D.C.</strong></p>
<p><em>&#8220;Existem muitos mundos ou haverá um só? Esta é uma das perguntas mais nobres e elevadas no estudo da natureza.&#8221;</em><br />
<strong>- Albertus Magnus, século XIII</strong></p>
<p><em>&#8220;&#8230;e mesmo que não tenhamos visto, é claro que Deus soprou o hálito da vida nas narinas do Homem, por inúmeras vezes, e continuará fazendo-o por outras inúmeras vezes, em inúmeros outros Universos&#8230;&#8221;</em><br />
<strong>- Prabhu Kâla Candraloka, Saga Doktrino, 2061 D.C.</strong></p>
<hr />
<p>Alan não sabia mais o quanto poderia aturar daquela discussão. Não que não gostasse de Paola, ela o interessava bastante, mas acontecia que era uma leiga no assunto, e ele odiava ter de discutir com pessoas desinformadas. Geralmente estas acreditavam saber mais que especialistas. Teve de abrir mão dessa filosofia depois do quinto copo de whisky, mas conservava-se consciente de que estava certo. &#8220;Afinal ela é evangélica&#8221; &#8211; Não gostava de pensar daquele modo, procurava ser uma pessoa sem preconceitos e sabia que havia grande diferença entre as religiões e os religiosos.</p>
<p>- Não, Alan. Isso tudo é uma grande besteira &#8211; Paola sacudia uma das mãos ao lado do copo de Lemon Coke em cima da mesa &#8211; Não faz sentido e, além do mais (e nem tente dar um de seus sorrisos sarcásticos) Ele vai chegar antes disso acontecer!</p>
<p>Alan quase engasgou com o whisky (voluntariamente) ao ouvir a referência ao hipotético filho de Deus na mitologia cristã &#8211; Paola! Sabe que não gosto de conversar nesses termos. A própria Saga Doktrino renega esse tipo de comentário.</p>
<p>- Ah, claro! Esse bando de panacas, com suas togas cor de abóbora, que não sabem fazer outra coisa senão peregrinar pelas Planitias equatoriais de Marte. Sinceramente&#8230;</p>
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