Desta vez é Diferente

Publicação: 25 de dezembro de 2009

escrito em:
21 de Setembro de 1990

Era bem diferente de tudo que eu já havia visto. Meu traje de mergulho podia não ser tão flexível quanto eu gostaria, mas servia, até que meu próprio equipamento de mergulho chegasse de Gamow, de onde fui deportado. Não gostava de pensar naquelas coisas, embora, por vezes, fosse impossível. Estava quase chegando a margem, enquanto me deslumbrava com o escarlate das rochas submersas.

Eu não devia pesar mais de dois quilos, estando a dez metros da superfície, e me sentia bastante confortável, considerando que meu peso na Terra era de noventa quilos. Não era gordo, não… Eu até que me exercitava bastante para meus oitenta e dois anos. A verdade é que não havia quem dispensasse o prazer de nadar na gravidade de pouco mais de um terço.

Emergi diante de Dorian, o Sol por trás dele.

– Que lindo, não? – Já havia notado a expressão de irritação em seu rosto: nenhuma novidade… tentei ser paciente.

– Por que você entrou, Tadeu? Não sabe que eu não concordo com essa coisa toda? – Percebi que ele rangia os dentes.

– Desculpe-me, Dorian… – Comecei, saindo da água – …é que não pude resistir. Por que, afinal, você resolveu comprar esta casa à beira-mar? – Dorian bufou – Vai me dizer que nunca deu um mergulho?

Ele usava um calção de banho azul e um grosso roupão aquecido eletricamente. Comecei a tirar meu traje – …Não, eu nunca dei um mergulho e, como meu amigo, preferia que também não o fizesse. – Virou-se, quase entornando o líquido do copo cheio de Grendel – Quanto a casa, foi pedido de Sarah. – Falou enquanto subia as escadas para a grande varanda do segundo andar.

Talvez estivesse sendo um mau hóspede, afinal… Acabei de tirar o traje e peguei meu roupão térmico, sentindo o frio costumeiro. Olhei em volta. A paisagem era bastante avermelhada, e não havia outra casa visível. “Vão haver mais”, pensei em silêncio. Andei até a beirada da escada e fechei o roupão. Já sabia que Dorian precisava desabafar. Subi.

Ele estava deitado numa daquelas poltronas em estilo “pós-pós”, em fibra sintética, que eu tanto odiava, bebendo seu Grendel. Sorvia o líquido verde escuro com irritação. Eu gostava dele… Se parecia bastante comigo. Eramos ambos rebeldes em essência e, embora ele fosse ainda mais radical, o Luna Libre não era exatamente uma instituição religiosa. Depois da sabotagem no sistema abastecedor da Embaixada da Terra, fora Dorian que conseguira que eu fosse apenas deportado. O que, considerando o ódio do Diretor da Astropol por minha pessoa, fora uma verdadeira façanha. Dinheiro não era problema para Dorian… muito menos poder.

Sentei-me perto dele, em outra poltrona. A visão das águas calmas daquele mar jovem não me deixavam acreditar que Dorian podia ter problemas.

– Dorian…

– Qual o problema, Tadeu? Não posso olhar para essa maldita praia? Te incomodo? – Gritou e virou-se novamente para as leves ondulações.

– Calma, amiko. Estou do seu lado, lembra? Onde está Sarah?


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Categorias Contos, Phoebe, Sistema: Sol

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