Crise de Identidade

Publicação: 28 de dezembro de 2009

escrito em:
13 de Dezembro de 1990

Diário de Percival F.Corianow,
21 de Junho, 09:50 MCM (Meridiano Central de Marte), 2116.

“Agora estou mais conformado… Andei pensando muito no que aconteceu e acho que eles tiveram um fundo de razão. O problema é que andei pensando por dois anos, e já estou um tanto desconfortável. Por isso, penso eu, comecei a escrever este de diário. Imagino vocês conjecturando, antes de eu começar, que se o Pentágono resolveu mandar um ‘embaraço’ para o Cárcere de Alta Segurança de Noctis Maze, em Marte, é porque, provavelmente, era um embaraço e tanto… Nada! Eu não passo de um nada! Do contrário não teria me metido em algo assim.

“A cela é um tanto fria, mas posso observar os canais tubulares de Lowell 5, que abastecem o canyon de Vallis Marineris para saciar o desejo do Homem de ter um mar feito por ele mesmo. Lá embaixo, os poucos homens que se faziam ver, não usavam os antigos trajes espaciais, já que a rarefeita mas não inexistente nova atmosfera de Marte era suficiente para que usassem apenas máscaras de oxigênio. Por vezes eu via um ou outro trabalhador usando bermudas! Quem diria…

“Já estou farto de bancar o escritor, e o pior é que não paro de pensar em Rachel, minha esposa, vocês sabem… Não sabem, certo? Acontece que ela não aparece há dois meses, e tinha ficado de vir me visitar sempre.

“Vocês não podem me culpar. Imaginem-se em sua bela casa, com sua bela mulher, assistindo a um belo documentário holográfico em seu novo (e belo) projetor, comprado com o resto do dinheiro que ganhara por serviços prestados ao seu contratante – como astronauta. Agora imaginem que, no meio da melhor parte, aquela na qual você e ela já não mais estão prestando atenção ao documentário e estão quase às vias de fato, um trio de ‘belos’ homens em ‘belos’ ternos entram em sua bela casa, sob ordens do mesmo maldito contratante daquela, também maldita, missão que você julgara fracassada havia oito anos.

“Não, a missão não fracassara por minha causa, mas por problemas de ordem técnica. Problema deles! Pelo menos foi o que disseram a mim e aos outros quatro homens que comigo participaram da missão. eu seria um reles personagem secundário dentro da nave, que se ocuparia apenas da manutenção e limpesa (Mas não quero me adiantar. Tenho de deixar o melhor para o final, não tenho?).

“Enquanto os outros eram típicos especialistas com formação acadêmico-científica: exogeólogos, xenobiólogos, e outras coisas do tipo – alternando prefixos inusitados – vocês poderiam me chamar, só para não romper o padrão, de exo-pau-para-toda-xeno-obra.

“Talvez vocês estejam achando toda essa bobagem bastante enigmática. Não é não, sou eu que não tenho lá tanta habilidade com as palavras mesmo. Quando as coisas no mundo começam a chegar ao ponto em que chegaram é que eu começo a pensar se aquele tal de Cresto estava certo ou não. Não sou religioso e não acredito em deuses, ou qualquer outro florismo subjetivista usado para tornar situações bizarras como essa algo mais aceitável.


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