A Coisa mais Importante

Publicação: 29 de dezembro de 2009

A última voz fôra de Edra. A transmissão estava péssima, mas antes de mais nada Abraham ativou o aparato de localização rompendo o lacre do interruptor de rádio-farol de seu traje. O pulso de rádio daquele dispositivo deveria ser suficientemente forte para mostrar a sua tripulação que ele estava vivo. Logo em seguida silenciou o aparelho – “Uma boa coisa que este sistema não possa ser acionado por acidente”, pensou.

Nenhuma voz ressoava no rádio depois disso e Sanmbar resolveu arriscar umas palavras – …Estou bem! – Gritou vacilante no microfone do capacete – A nave parece ter se comprimido… usou uma espécie de pasta ou gel!

Desequilibrando-se devido a baixíssima gravidade, Abraham começou a girar sobre si mesmo até ficar de ponta cabeça. Uma pequena correnteza pareceu puxá-lo enquanto outro dos já familiares chiados tomavam conta de seu capacete por um instante.

Após um evidente esforço para reposicionar-se e tomar algo como novo ponto de referência, Sanmbar verificou que não mais estava na câmara de descompressão, mas que esta podia ser vista atrás dele – do lado oposto ao que havia sido atirado pela correnteza dentro da estranha substância.

Com certeza o ambiente estava mais escuro, o que o levou a crer que a sala anterior mantinha alguma forma de iluminação. Teve de respirar fundo o oxigênio do traje e se acalmar novamente. Não tinha idéia do que esperar de uma nave alienígena. Tolices das mais diversas passavam em sua mente mas tinha de se ater ao procedimento de reconhecimento sem pensar, por exemplo, no que aconteceria se, no lugar da substância viscosa na qual agora flutuava, a nave se comprimisse com ácido molecular.

Não parecia uma sala muito grande. Devia haver bastante maquinário entre a fuselagem e o revestimento interno – o veículo parecia mesmo muito maior por fora que por dentro. Difícil avaliar sem saber qual o propósito da cápsula.

A iluminação era tão fraca que nem notara o fechamento de uma escotilha entre a câmara de compressão e a sala na qual estava – o que foi denunciado apenas pelo chiado em seu rádio. Resolveu abstrair as preocupações e agir como o cientista que era.

A refringência – a taxa de refração – da pasta em que forçosamente imergira ao entrar, não era tão grande, mas sua falta de homogeneidade era evidente, como se ela tendesse a manter bolsões mais e menos densos. Ficou imaginando que, se não havia defeitos nos dispositivos de manutenção daquela sopa purpúrea, seria muito difícil à um cosmonauta enxergar com precisão através da substância mesmo com farta iluminação.

Procurou algo parecido com monitores nas paredes e nas bizarras protuberâncias que se projetavam do chão e do teto alternadamente. Nada parecia estar ligado a nada, fossem lá o que fossem aquelas formações, mas de algum modo pouco distinto aqueles conjuntos de superfícies côncavas, longilíneas e simétricas ladeando aqueles hemisférios aglomerados pareciam seguir alguma espécie de padrão sutil e conscientemente imperceptível.

Tomou nas mãos, novamente, o medidor de eletrostática e campos magnéticos. Aproximando-se de uma das paredes Sanmbar acionou o aparato, notando a grande diferença entre o material destes painéis e o que vislumbrara na câmara de compressão.

A superfície aparentemente emborrachada tinha uma textura oleosa, ou ao menos era o que lhe parecia através do traje. O cientista que existia nele duvidou da percepção de que a parede reagia ao toque com alguma espécie de secreção, mas pouco se poderia dizer com todo aquele gel envolvendo-o.

Nada era registrado no aparelho. O veículo parecia “morto”. Não podiam esperar mais que isso, afinal o mais provável é que ela lá estivesse havia vários séculos – e por que não? – talvez mesmo milênios…


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Categorias Contos, MegaParsecs, Sistema: Sol

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