A Coisa mais Importante

Publicação: 29 de dezembro de 2009

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Foi uma longa viagem até o inevitável Cinturão de Solenne. Não passaram por qualquer corpo maior que um seixo, ao longo do caminho. “Um lugar solitário, o espaço, sem grandes surpresas…”, Sanmbar lembrara de ter lido em algum lugar.

Aproximando-se do cinturão, finalmente, tinham algo mais a analisar além de variações espectrais e micro-núvens rarefeitas de hidrogênio. Aquelas enormes “rochas”, tal como os asteróides do cinturão que orbitavam o velho Sol do Eixo, contavam um pouco da historia do Sistema Solenne.

Abraham imaginava o que teria causado a formação daquele anel de asteróides. Ou sua ocorrência era normal em sistemas planetários ou havia mesmo uma grande coincidência na formação de Solenne e do sistema natal dos seis tripulantes a bordo da Fellini.

Como astrofísico, a principio, lhe fôra difícil receber o encargo de comandante. Talvez por isso, naquele momento, estivesse vasculhando o espaço em busca de… e o que havia para buscar em uma região do espaço como aquela? Naquele deserto de pedras “flutuantes”?… Conforto?

Era mesmo uma situação insólita: encontrava-se em um sistema solar distante do Eixo Terra-Luna-Marte em mais de vinte anos-luz. viera com um grupo colonizador composto por três dezenas de naves de enormes proporções e, naquele momento, estava destinado a perecer entre as estrelas. Parecia-se com a situação de um náufrago que, embora pudesse ver o continente a quilômetros de distância sabia nunca poder alcançá-lo por lhe faltarem as forças para tanto.

No final, Abraham Sanmbar nada mais podia fazer a não ser observar o espaço, divagando, enquanto a escassez de ração e oxigênio não se faziam sentir.

O asteróide que focalizara estava bastante distante. Não o bastante para não ser visto mas o suficiente para que seu contorno mais se parecesse um defeito no visor do painel monitor.

Como no cinturão que orbitava o Sol do Eixo, os asteróides se mantinham a grandes distâncias uns dos outros. Os únicos dois corpos vagamente visíveis não eram mais que tênues pontos de luz nos monitores. Quando ouviu o impessoal aviso de que um rádio-farol – um sinal de radio de alerta – havia sido detectado nas proximidades, nem soube, em sua indiferença, como reagir. Alcançou o comunicador e informou o ocorrido laconicamente aos outros tripulantes: alguma outra nave devia ter lançado uma sonda anteriormente e esta provavelmente acabara colidindo com…

Assombrado, pouco depois, observou os gráficos tridimensionais que evoluíam numa das telas do painel que divisava diante de si. Os sensores da nave, dentre outros métodos de analise, usava de um feixe de laser para alimentar os computadores com o padrão de reflexo espectral. Com isso, era possível avaliar, graças a absorção espectral seletiva dos raios laser pelos elementos químicos, do que era constituído um determinado objeto.

Um dos feixes, naquele momento, incidia sobre o asteróide que observava. O foto-espectrômetro fora alimentado por valores tão dispares que chamaram a atenção até mesmo das singelas condicionais dos algoritmos dos equipamentos de análise.


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Categorias Contos, MegaParsecs, Sistema: Sol

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